hiperorgânicos#3
Essa imagem representa bem a distância que eu estava da praia nesse Hiperorgânicos#3. Mesmo tão perto, não consegui pisar na areia. A não ser no dia que cheguei e pulei de penetra no ônibus da caravana carbono neutro, dos hackers do Pará. Essa distância da praia e do cotidiano carioca pode ser transportada para dentro da Sala Funarte, onde aconteceu o OpenLab proposto pelo Hiperorgânicos. Vários artistas, pesquisadores, entusiastas, de diferentes lugares, presentes física e digitalmente, na tentativa de construção de linguagens e interseção de informações entre seus projetos, suas cavernas. As práticas no Openlab me fizeram pensar em duas coisas: qual a real importância de se patrocinar a troca de dados em rede entre projetos e experimentações pessoais artísticas? De encontro, como pensar e articular uma rede mais robusta para o consumo de dados entre dispositivos para uma real conexão com a cidade, o cotidiano e suas ecologias?
Vou fazer um corte para um dado super peculiar: nessa próxima semana, Recife vai promover um encontro chamado SmartCity Bussiness, algo como negócios para as cidades inteligentes. Empresas, instituições, pesquisadores, investidores são os alvos desse encontro. Assim como o The Internet Of Things e a apresentação de Vlad Trifa no LIFT11 denunciaram, o setor empresarial está se apropriando de forma equivocada das cidades inteligentes. O governo, sem profundidade no assunto, investe recursos em desenvolvimento de novos protocolos de comunicação entre devices, financia pesquisas para empresas e hubs consumirem dados importantes que são expelidos pelas ‘peles’ das cidades a um preço altíssimo e de retorno financeiro garantido. E no final, o maior interesse é o controle completo dessas informações advindas de celulares, sensores, gps, satélites, plantas, parques e gadgets. E por consequência, a venda dessas informações valiosas de volta para o governo e as instituições público/privada.
E o que isso tem a ver com o Hiperorgânicos#3?
http://re.gistre.me/cotidianosensitivo
A RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa) está interessada, há bastante tempo, nas redes formadas pelas pessoas, seja de coletivo de mídia tática, cultura digital e grupos de pesquisas dentro e fora das universidades. O Hiperorgânicos é organizado pelo NANO, no qual se encaixa no perfil da instituição patrocinadora. Também estava na pauta a instalação de uma rede gigabite dentro da Funarte, para aproximar de vez as práticas de laboratórios e mídia-labs para as instituições de cultura do país.
(3CO no RJ)
Qual o impacto no cotidiano das nossas iniciativas de pesquisas e experimentações entre trocas de dados por devices e organismos? Que tipo de investimento instituições como a RNP pode patrocinar para que as pesquisas dos labs garantam a liberdade desses dados, cada vez mais cooptados pelas megas corporações? Como podemos garantir a evolução dessas conexões entre dispositivos para plataformas mais robustas de troca de dados via HTTP REST e Cloud Computing, como a Cosm?
É fácil notar as diferenças entre recursos e estabilidades entre um evento formado por empresas do alto escalão contra os laboratórios de pesquisas e experimentações em cultura digital expandida. Falta consciência por parte dos artistas que querem ver seus dados trafegando redes afora por pura e simples estética. É preciso potência, política e visceralidade. Tenho certeza de que nesse evento SmartCity, grandes negócios com nossos dados serão fechados. Quanto vale o fetiche dos artistas para as corporações http?
É urgente focar em iniciativas para pesquisas e desenvolvimento de projetos, plataformas e dispositivos open-sources de consumo de dados em rede, para a saúde e liberdade da Internet das pessoas e das cidades.
ps: Agradecimentos para a RNP por patrocinar minha ida até o Hiperorgânicos#3.
3c0 ecosistema do sensitivo
“o planeta terra vive um período de intensas transformações técnico-científicas, em contrapartida das quais engendram-se fenômenos de desequilíbrios ecológicos que, se não forem remediados, no limite, ameaçam a vida em sua superfície. o que está em questão é a maneira de viver daqui em diante sobre o planeta, enriquecendo os modos de vida, reinventando o meio ambiente e fortalencendo a sensibilidade através de aparatos que dialogam com o técnico, o sensível e o natural.”
Felix Guatarri Remix
3c0 é uma intervenção urbana interativa que coleta dados ambientais em tempo-real e atua de forma a construir um ecosistema híbrido que reage com as intensidades do cotidiano urbano.
as reações são acopladas em servos motores que acionam guarda-chuvas equipados com sensores analógicos e digitais capazes de sentir informações como temperatura, intensidade de luz e ruídos, sinais sonoros, gases e poluição.
a cada variação no ambiente, seja por efeito humano ou da natureza, excita o aparato a provocar dilatações e contrações na sua estrutura, dependendo da potência do desvio ambiental.
esta intervenção aconteceu no mês de Julho de 2011 no parque Ruber Van Der Linden, durante o Festival de Inverno de Garanhuns-PE. Nas próximas semanas, os guarda-chuvas circularão por outras cidades do Nordeste, com possibilidades de conexões com o servidor para troca de dados em rede.





ricardo brazileiro é cientista da computação com experiência em arte eletrônica, internet e educação. Atualmente é mestrando em ciências da computação no Centro de Informática da UFPE e é sócio do laboratório 3Ecologias.net onde realiza trabalhos de consultorias em Educação e Tecnologias.
