brasil-colombia: táticas, redes e convergências.

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COMO ORGANIZAR um relato de um festival que acabou há mais de uma semana e ainda reverbera intensamente até este exato momento?

Desde que voltei para Recife, depois de cerca de 10 dias de vivência na cidade de Medellín na Colombia, tento organizar um material que sintetize um pouco as diversas experiências que aconteceram no festival LabSURLab, inclusive suas implicações, tanto pessoais quanto para a aldeia brasileira de ativismo tático de arte, tecnologia e cultura livre.

Como consequência dessa minha vontade, a primeira tática que tive foi juntar todo o material audiovisual que coletei despretenciosamente durante meus deslocamentos pela cidade e pelo festival e fazer uma releitura dos acontecimentos registrados. Percebi então que a primeira estratégia seria produzir um pequeno video-doc juntando algumas fotos e videos em ordem cronológica para sentir novamente um pouco do mesmo feeling que rolou na cidade e no festival.

O festival tinha começado no dia 4 de abril pela manhã e eu só desembarquei na cidade no final da tarde, mesmo assim fui até o Museu de Arte Moderna de Medellín para saber o que estava rolando e dei de cara com o movimento dos Hacktivistas. Eram dois hackers falando sobre suas estratégias de ativismo na Europa. Eles falaram sobre a Hackademy, que é “uma academia hacktivistas autogestionada que promovem cursos para libertação do computador dos softwares proprietários, com orientações para uso e difusão de ferramentas livres úteis para autodefesa digital, ativismo e comunicação libertária para produção de cultura livre”. Não muito diferente do que fazemos no Brasil com os Pontos de Cultura, organizações, festivais, pessoas, artistas. Outra estratégia dos hacktivistas foi em cima de algumas políticas anti-pirataria e anti-cultura-livre do Ministério da Cultura da Espanha, com estratégias como Descarga Pública P2p, desmembramento político através do ativista Isaac Hacksimov, avatar-hacker que enviava fax/correios/emails para o Ministério colocando em contradição todas as políticas pró-industria espanhola. Em outro momento, os hacktivistas falaram do sistema oiga.me que é um projeto de envio sistemático de emails para políticos e diplomatas.

Ou seja, já no começo do festival deu para sentir que as pessoas que estavam ali tinham experiências interessantes para compartilhar. E continuou no outro dia com a apresentação do pessoal da Antena Mutante que em pouco tempo, mostrou que tinha planejamento político-ativista, trabalho coletivo e em rede. Na sequência foi a nossa apresentação, “El complejo panorama Brasileiro”, mas vou separar um outro parágrafo para explicar melhor o que aconteceu.

Logo que cheguei a Medellín, percebi que a programação do seminário tinha mudado de “LaboCA” para “O complexo panorama Brasileiro”, e que na mesa estaríamos, Tati Wells, Ricardo Ruiz e eu. Como Ruiz não conseguiu passagem para chegar no festival, o Miguel, do Centro Cultural da Espanha no Brasil, que estava participando do festival e iria apresentar outros trabalhos, chamou a responsabilidade e assumiu o posto para nos ajudar nessa “missão”. Agora, como falar sobre o panorama brasileiro de mais ou menos 10 anos em apenas 30 minutos? Depois que acabaram as apresentações do primeiro dia, fomos organizar o que seria interessante falar sobre nossa história. Achamos que apenas um contexto cronológico já iria mostrar toda a complexidade das nossas atividades no Brasil. E começamos esse exercício de voltar para a época entre 90  e começo de 2000, simbolizando as convergências dos movimentos Indymedia / FSM / FISL / Metáfora / Laboratórios de Midia Tática. Para continuar essa investigação, Tati relembrou do mapa de midia livre, tazes e seus contribuintes entre 2003 e 2006 que foi elaborado por ela e Ruiz.

Este mapa parece ter caído como um satélite nas nossas cabeças. Para mim, ter feito uma pequena análise no mapa, me fez pensar em como nossos experimentos e pesquisas com tecnologias livres, nomadismo e comunidades, foi influenciado pela aquela história que estava cartografada, e também em como nosso movimento atualmente pode ser analisado pelo mesmo traço de 2003-2006. Pensamos que para a apresentação de 30 min não seria fácil falar dessa cartografia mas que valeria muito a pena se a gente apresentasse a proposta de começar uma atualização do mapa para o agora, 2007-2011. Seguimos a preparação da apresentação com as convergências de ações de ativismo-tecnológico-midiático e,  por fim, fizemos uma breve análise de como nossos laboratórios (festivais, movimentos, pessoas, coletivos) são autônomos, temporários, precários e com relações institucionais conturbadas, como é o caso atual da mudança de foco do Ministério da Cultura para uma política pró-industria, pró-elite-cultural e anti-cultura-livre.

Na hora da apresentação, sabíamos que não estávamos ali falando de um trabalho pessoal ou artístico individual, mas sim de um monte de gente que vive e respira essa história todos os dias no Brasil. Queríamos ser o outro e todos ao mesmo tempo, usamos óculos escuros para criar o personagem brasileiro e não nos importou se a estratégia não foi compreendida pelas pessoas que estavam no museu naquele momento. Por dentro já estava tudo resolvido.

elcomplexo

E o festival seguiu com outras apresentações bastante interessantes no mesmo dia. Nos dias seguintes, começaram as oficinas, mesas de trabalho e outras atividades pela cidade. Eu estava “tageado” para participar da mesa sobre as comunidades, no Centro Cultural de Moravia, na comuna 4, lugar encantador e muito parecido com o contexto brasileiro: muita ciência nas pessoas que vivem na comunidade, poucas oportunidades na metrópole e forte resistência cultural e tecnológica. No centro, também estava acontecendo a oficina de video-cartografia do pessoal do hacktectura, que com uma metodologia muito interessante, conquistou um grupo de pessoas para fazer mapeamentos das ações nas comunidades 4 e 13 de Medellín e conseguiram resultados plausíveis, apesar de usar tecnologias proprietárias para edição e finalização do projeto.

A mesa de trabalho em comunidades serviu para uma análise de como os movimentos que se fazem presentes nas comunidades latino americanas compartilham de pensamentos e ações semelhantes. A metodologia da mesa foi dividir as pessoas em alguns grupos e respondemos algumas questões como: Por que se trabalha em / com comunidades? Quais as dificuldades, Metodologias, o papel das novas tecnologias etc. Neste link é possível acompanhar todos os relatos da mesa. Uma posição interessante foi de criar um texto / manifesto coletivo sobre o trabalho em comunidades. Juntamos todas as reflexões e nos reunimos para compilar o documento, que ainda está em construção mas já está compartilhado.

De volta ao Museu de Arte Moderna, recebemos um convite para fazer uma apresentação sobre o Movimento dos Sem Satélites na programação do Dorkbot Medellín. Como sempre, decidimos criar uma performance em rede com Glerm Soares, Tati wells e Oscar Martin interpretando o manifesto e uma trilha sonora bruta de /dev/dsp do próprio manifesto. Esse dia me vez refletir sobre o quanto nossas atitudes são extremamente espontâneas e como essas características influenciam no nosso jeito de fazer festivais, construir coletivos, projetos, softwares, instrumentos.

Nos últimos dias do festival, voltamos para as apresentações dos resultados das oficinas e mesas de trabalho. Aproveitamos esses dois últimos dias para começar a atualização cartográfica do nosso mapa de ação tática no Brasil. Não foi uma tarefa fácil, mas o pouco que fizemos já revelou algumas estratégias que criamos durante esse tempo e como algumas ações perderam força, outras cresceram e algumas ações que surgiram muito forte na rede.

mapa_ativismo_atualizando

Paralelo a esse trabalho, participamos da mesa sobre Labs em Redes, expondo nossas feridas da cooptação governamental sobre nossas atividades e como isso nos desestabilizou e fez com que pessoas saíssem para outros nós da rede para sobreviver em meio ao caos que é viver de arte, ativismo e tecnologia livre no Brasil. Ao mesmo tempo, esse acesso ao governo fez com que surgissem diversos laboratórios de midia pelos Pontos de Cultura no Brasil, fortalecendo ainda mais nosso nomadismo e independência de estruturas físicas complexas. O projeto RedeLabs resume um pouco esse nosso jeito de funcionar nômade, em rede e com o que temos na mão. Essa experiência, acredito, foi muito importante para as outras pessoas que estão investigando isso na América Latina. Vanessa (Pata de Perro) inclusive mostrou um fluxograma de como seria possível criar uma rede de laboratórios em pequena escala para começar um fluxo de projetos entre esses espaços. Achei que poderia ser interessante fazer um fluxograma desses aqui para o Brasil, para saber quem é quem, onde as pessoas estão, o que fazem, se podem receber outras pessoas, o que podem oferecer e como criar uma convergência de trabalhos.

Finalizamos nossas atividades no festival rabiscando esse novo mapa, pensando em como a rede poderia fazer este mesmo exercício, atualiza-lo de forma estratégica para fazer uma avaliação das nossas atitudes até agora e assim planejar os próximos segundos, sem deixar cair nossos servidores, nossos projetos, nossas redes. Ter ido até a Colombia, me fez ter uma nova visão das nossas estratégias de sobrevivência no Brasil, como somos rápidos, como somos criativos e como somos fechados para outros lugares, não olhamos para nossos vizinhos da América Latina que vivem na mesma rede e compartilham de problemas parecidos, sentem vontade de interagir mais com as redes daqui mas não enxergam essa abertura. Criamos um bocado de projetos, redes, sistemas, coletivos mas não conseguimos dar conta da demanda de possibilidades, não somos nem capazes de sustentar nossos servidores onde estão nossos sítios, hipertextos, manifestos e históricos. Como e quando vamos voltar a agir tatica/coletivamente?

Agradecimentos especiais a Tati Wells por ter compartilhado dessa vivência no festival, a todos os participantes do festival e sua organização, Miguel e Jarbas Jácome, as pessoas no Centro Cultural de Moravia, Comuna 13, as pessoas do Museu de Arte Moderna de Medellín e a Secretaria de Cultura de Pernambuco, por ter colaborado com meu transporte até a cidade de Medellín/Colombia.

4 Comments

  1. Posted 30 de abril de 2011 at 9:03 | Permalink

    yeah!

  2. Posted 30 de abril de 2011 at 18:56 | Permalink

    Massa seu relato do evento. Vejo que a realidade brasileira guarda semelhanças com o movimento em outros países. Fundamental essa aproximação com nossos vizinhos de continente.
    abraço!

  3. Jarbas Jácome
    Posted 17 de maio de 2011 at 1:49 | Permalink

    muito bom mesmo o relato, Braza!
    realmente uma pena eu ter chegado no final.
    abraço.
    jjR

  4. Jarbas Jácome
    Posted 17 de maio de 2011 at 1:56 | Permalink

    outra coisa massa do evento foi ter conhecido os caras do http://www.unloquer.org/ que são de lá de Medellìn mesmo.

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